O brasileiro já está acostumado com notícias sobre violência urbana. No jornalismo, o primeiro Emmy do Jornal Nacional foi concedido justamente com a reportagem sobre a operação de tomada do Morro do Alemão. Na ficção, o cinema brasileiro renasceu baseado na exploração do tema. Cidade de Deus, Carandiru, Tropa de Elite, todos retratam o fenômeno da criminalidade, da dúbia posição da classe média sobre o crime, das simplificações esquerdistas, dos exageros do movimento Lei e Ordem. É clássica a cena em Tropa de Elite na qual um deputado estadual do Rio de Janeiro, também professor de Ciências Sociais, conquista a platéia demonstrando que, se a população carcerária aumentar no ritmo atual, o Brasil inteiro estará atrás das grades, no futuro. Trata-se de um jogo retórico difícil de desvendar. Seriam os presídios Casas Verdes, e os operadores do Direito e do sistema prisional simulacros de Simão Bacamarte, personagem de O Alienista, ainda por perceber que os loucos não são os criminosos? A perplexidade desse argumento contrapõe-se ao estilo truculento do Bope e do Capitão Nascimento e sua aura de herói maldito.
A atenção que esse tipo de filme gerou, e a dubiedade de comportamento que ele retratava, sobretudo por parte da classe média, encontram-se presentes também na releitura de personagens históricos: Lampião e seu bando, nessa ótica, não seriam tão maus assim, não seriam tão truculentos, ou pelo menos seriam tão truculentos quanto a polícia da época. Haveria uma ética na bandidagem, uma espécie de código de honra, seguido pelos criminosos, homens livres meio que incompreendidos. Lampião vira herói.
E eis que nos deparamos com um caso em que o bandido não pode ser herói: ele matou, gratuita e banalmente, um respeitado médico de Maceió, cidadão correto, homem de bem, como se dizia nos tempos de minha avó. E o fez num local criado para o lazer. O crime chocou a sociedade. Chocou os vizinhos. Mobilizou as redes sociais. Gerou uma passeata de protesto.
É curioso que eu esteja escrevendo este texto após o post, sempre arguto, de Adrualdo Catão (ver o artigo aqui), porque meu raciocínio vai retomar o tema desenvolvido por Adrualdo, enfocando outro aspecto, porém. Eu concordo com Adrualdo quando ele diz que o protesto da população não ocorreu apenas porque os ricos apoiam os seus, e sim porque a comunidade local, os vizinhos e amigos, ficaram chocados com a banalidade das circunstâncias do crime. Concordo ainda que a pobreza não seja causa suficiente para a criminalidade.
No entanto, entendo que as manifestações de paz tornaram-se relevantes nas mídias justamente porque provieram da classe média. A classe média tem todo o direito de protestar, como bem argumenta Adrualdo Catão em seu post, e os protestos não são, como ele pondera, exclusividade de organizações sindicais ou representantes de movimentos sociais ligados à população mais carente. A classe média tem todo o direito de protestar, e nisso concordo integralmente com Adrualdo. O problema é que o faz pouquíssimo. A classe média protesta pouco, quase nada.
Em seu blog Palavras ao Vento, Candice Almeida aponta com percuciência a falência do sistema de segurança em Alagoas, com seus problemas estruturais e de definição de políticas de segurança (ver o post aqui). A criminalidade cresce, argumenta Candice, porque o Estado é inoperante. Noutro post, dessa vez em seu blog no portal Cada Minuto (ver post aqui), Candice Almeida mostra a escalada da violência em Alagoas. Nos primeiros anos do novo século, a violência vem aumentando consistentemente. Abordando um aspecto mais urbanístico, digamos assim, Sérgio Coutinho lembra que o local do cometimento do crime deveria ser usado como um verdadeiro espaço comunitário, em que apresentações culturais e a presença diária da comunidade dariam vida ao ambiente (ver o texto aqui). Uma ocupação adequada do espaço público seria uma arma no combate à criminalidade, como bem lembrado por Sérgio.
Os posts de Candice Almeida e de Sérgio Coutinho ilustram uma falência não somente de políticas de segurança, mas de políticas culturais e urbanísticas. Todos esses problemas seriam motivos mais do que suficientes para que a classe média protestasse. Os protestos, no entanto, são muitos reduzidos, embora motivos não faltem.
É de se perguntar: por que a classe média não protesta mais? Por que a sociedade como um todo não protesta mais?
E é aqui que retomo um dos pontos referidos por Adrualdo Catão: a classe média tem todo o direito de protestar, mas esse protesto, como ele mesmo coloca, somente ocorreu quando as pessoas se sentiram diretamente atacadas pelo episódio de violência. A empatia somente despertou quando se viu o vizinho ser atingido.
Lembro-me de uma colocação do ex-Governador Ronaldo Lessa, em que ele dizia que as balas, em Alagoas, tinham endereço certo, não eram perdidas. Essa afirmação referia-se a um aspecto lamentável da criminalidade em Alagoas: os homicídios eram crimes de mando, com forte conotação política.
Sendo crimes de mando, apenas aqueles que se indispusessem com os caciques locais poderiam ser alvo de violência. Não era algo que nos atingia. Se não se procurar encrenca, viver-se-á em paz.
Com o tempo, as manchetes dos jornais passaram a dar destaque a outro tipo de crime: o tráfico de drogas estaria vitimando dezenas de pessoas na periferia de Maceió. O tráfico teria tomado conta das grotas de Maceió. E aqui é inevitável que se faça uma constatação: Maceió afunda-se na criminalidade, literalmente falando.
Ora, se os crimes da periferia ocorrem por conta do tráfico, o mesmo raciocínio aplicado aos crimes de mando também é aqui aplicável: aqueles que não consomem drogas, ou não se envolvem com sua comercialização, também não serão atingidos pela criminalidade.
E a reação da classe média era uma só: ir vivendo e ignorando a violência que espreitava a sociedade.
Até que chegou o momento em que um motivo banal, por um criminoso possivelmente relacionado com o tráfico de drogas, vitimou um médico conhecido, respeitado, querido, que simplesmente passeava com sua bicicleta na orla de Maceió.
E os protestos finalmente vieram. A classe média finalmente percebeu que estava sendo atingida. Os mais próximos, os vizinhos e os amigos, foram os primeiros a gritar: de dor pela perda. Aos poucos, o círculo expandiu-se: pessoas que nem sequer conheciam a vítima sentiram-se incomodadas, tocadas, estarrecidas.
O que os protestos demonstraram é que os crimes não estão restritos a minorias: usuários de droga, traficantes, pessoas com inimizades políticas. O crime alastrou-se, a ponto de hoje Maceió ser a terceira cidade mais violenta do mundo.
A criminalidade, hoje, é mais um problema a se juntar aos inúmeros que Alagoas tem: sistemas educacionais e de saúde precários, economia pouco diversificada, municípios que vivem de Fundo de Participação, casos de corrupção que corroem os recursos públicos, estrutura demográfica completamente desajustada, em que Maceió é responsável por 40% da população de todo o Estado, IDH baixíssimo.
E a despeito de todos esses problemas, a classe média simplesmente não protestava. Foi preciso ver-se atingida para esboçar uma reação.
Essa ausência de protestos, em Alagoas, como um todo, e em Maceió, em particular, é sinal indicativo da falência em outra área: a esfera pública tem atuação mínima.
Em seu livro A condição humana, a filósofa alemã Hannah Arendt desenvolve o conceito de ação, representativo da atuação humana na esfera política, e o alça a posição de relevo entre as atividades humanas (contrapondo-o ao labor e ao trabalho, isto é, às atividades meramente biológicas e à transformação do espaço mediante a intervenção humana), justamente porque a atuação política seria representativa do viver em sociedade, do conviver. Para Arendt, a pluralidade seria a condição per quam da humanidade. O fato de não estarmos sozinhos neste mundo seria uma condição humana e a atividade política, por ela chamada de ação, seria a atividade na qual essa característica seria manifesta. Lembrando o exemplo grego, do qual ela sempre foi admiradora, essa esfera pública encontraria seu locus (ou topos, para ficarmos na referência grega) na ágora, espaço público no qual os cidadãos inserir-se-iam por palavras e feitos.
Ocorre que a esfera pública, em Alagoas, tem uma movimentação muito restrita. O alheamento da classe média é visível, o que torna o ambiente muito propício à privatização do público por parte de quem detém o poder, aos ataques da corrupção e a uma dificuldade imensa de se tirar o Estado das condições de precariedade em que se encontra. A praça tornou-se jardim; o espaço público foi apropriado, enquanto que os cidadãos colocam-se, eles próprios, numa posição de alienação e de ostracismo.
Essa pouca participação política é, em parte, responsável pelos níveis de criminalidade que presenciamos aqui em Alagoas, e em Maceió em particular. A passividade com que a classe média sempre encarou os problemas de Alagoas pode encontrar paralelo, guardadas as devidas proporções, na passividade com que os alemães viram a emergência da violência contra judeus. Observe-se aqui a similitude: a violência na Alemanha nazista estaria restrita aos judeus, ou a outras minorias. Não era, portanto, um problema que atingisse todos os alemães. Não haveria por que se preocupar. Muito diferente é o caso dinamarquês, em que houve reação por parte da sociedade (ver breve relato aqui).
Essa ausência atinge não apenas a classe média tradicional, como também a chamada nova classe média, a chamada classe C (muito embora o conceito de nova classe média seja bem problemático, pois o que o estudo da FGV faz é adotar um conceito meramente estatístico: aqueles com renda média pertenceriam à classe média, diferentemente da classificação usual, tendo suscitado críticas).
Enquanto a classe média tradicional se omite, não participando ativamente (no sentido arendtiano também) da vida política, a nova classe média sequer tem o costume de realizar os protestos. Como a nova classe C possui renda pequena, a preocupação parece ser primeiro a de garantir os meios de subsistência, ingressar na famosa sociedade de consumo, num movimento semelhante ao visto em outros países emergentes, como China e Índia, por exemplo. Talvez como explicação para esse fenômeno, pode-se mencionar Isaiah Berlin, o qual, em seu famoso ensaio Dois Conceitos de Liberdade, afirma que “o camponês egípcio precisa de roupas e remédios antes da liberdade pessoal e mais das roupas e remédios do que liberdade pessoal, mas a liberdade mínima de que ele necessita hoje, e o maior grau de liberdade de que pode vir a necessitar amanhã, não é uma liberdade que lhe é peculiar, mas é idêntica à de professores, artistas e milionários”. Berlin parece referir-se, aqui, à idéia de liberdade como liberação das necessidades de subsistência, algo bem parecido com o que o psicólogo Abraham Maslow pretende dizer ao mencionar as necessidades fisiológicas como base de sua pirâmide de necessidade.
É possível ainda imaginar que a evolução do direito do voto, no Brasil, também ajude a explicar a pouca participação política da chamada classe C: o voto censitário, calcado na renda, acostumou as classes com menor poder aquisitivo a não votarem. O foco no preenchimento de necessidades básicas, associado à pequena tradição política, são possíveis fatores que ajudam a explicar a ausência de participação da nova classe média, bem como das classes D e E.
E quanto à classe média tradicional (hoje as classes A e B)? O que explica esse alheamento?
Parece mais difícil encontrar resposta para esse questionamento. Suponho que a classe média viva num estado de ensimesmamento. As esquerdas talvez se apressem em culpar o individualismo excessivo e exijam um Estado maior, mais presente. Eu penso que talvez o problema se deva a um hedonismo latente: a preocupação com os prazeres próprios dificulta enxergar os sofrimentos alheios. Se a classe média de Alagoas não enxerga a sociedade como espaço plural e intersubjetivo, tal como concebe Arendt, a esfera pública padecerá.
A classe média precisa protestar mais e tornar-se ativa na esfera pública, como forma de modificar a estrutura política do Estado e retirá-lo da letargia em que se encontra. É preciso ocupar as praças também com manifestações políticas, além daquelas propostas por Sérgio Coutinho.
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O post foi ligeiramente alterado, para incorporar um segundo post de Candice Almeida e para retificar a menção ao post de Sérgio Coutinho, como ele próprio bem coloca em seu comentário logo abaixo. No mais, o texto continua o mesmo.





