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O brasileiro já está acostumado com notícias sobre violência urbana. No jornalismo, o primeiro Emmy do Jornal Nacional foi concedido justamente com a reportagem sobre a operação de tomada do Morro do Alemão. Na ficção, o cinema brasileiro renasceu baseado na exploração do tema. Cidade de Deus, Carandiru, Tropa de Elite, todos retratam o fenômeno da criminalidade, da dúbia posição da classe média sobre o crime, das simplificações esquerdistas, dos exageros do movimento Lei e Ordem. É clássica a cena em Tropa de Elite na qual um deputado estadual do Rio de Janeiro, também professor de Ciências Sociais, conquista a platéia demonstrando que, se a população carcerária aumentar no ritmo atual, o Brasil inteiro estará atrás das grades, no futuro. Trata-se de um jogo retórico difícil de desvendar. Seriam os presídios Casas Verdes, e os operadores do Direito e do sistema prisional simulacros de Simão Bacamarte, personagem de O Alienista, ainda por perceber que os loucos não são os criminosos? A perplexidade desse argumento contrapõe-se ao estilo truculento do Bope e do Capitão Nascimento e sua aura de herói maldito.

A atenção que esse tipo de filme gerou, e a dubiedade de comportamento que ele retratava, sobretudo por parte da classe média, encontram-se presentes também na releitura de personagens históricos: Lampião e seu bando, nessa ótica, não seriam tão maus assim, não seriam tão truculentos, ou pelo menos seriam tão truculentos quanto a polícia da época. Haveria uma ética na bandidagem, uma espécie de código de honra, seguido pelos criminosos, homens livres meio que incompreendidos. Lampião vira herói.

E eis que nos deparamos com um caso em que o bandido não pode ser herói: ele matou, gratuita e banalmente, um respeitado médico de Maceió, cidadão correto, homem de bem, como se dizia nos tempos de minha avó. E o fez num local criado para o lazer. O crime chocou a sociedade. Chocou os vizinhos. Mobilizou as redes sociais. Gerou uma passeata de protesto.

É curioso que eu esteja escrevendo este texto após o post, sempre arguto, de Adrualdo Catão (ver o artigo aqui), porque meu raciocínio vai retomar o tema desenvolvido por Adrualdo, enfocando outro aspecto, porém. Eu concordo com Adrualdo quando ele diz que o protesto da população não ocorreu apenas porque os ricos apoiam os seus, e sim porque a comunidade local, os vizinhos e amigos, ficaram chocados com a banalidade das circunstâncias do crime. Concordo ainda que a pobreza não seja causa suficiente para a criminalidade.

No entanto, entendo que as manifestações de paz tornaram-se relevantes nas mídias justamente porque provieram da classe média. A classe média tem todo o direito de protestar, como bem argumenta Adrualdo Catão em seu post, e os protestos não são, como ele pondera, exclusividade de organizações sindicais ou representantes de movimentos sociais ligados à população mais carente. A classe média tem todo o direito de protestar, e nisso concordo integralmente com Adrualdo. O problema é que o faz pouquíssimo. A classe média protesta pouco, quase nada.

Em seu blog Palavras ao Vento, Candice Almeida aponta com percuciência a falência do sistema de segurança em Alagoas, com seus problemas estruturais e de definição de políticas de segurança (ver o post aqui). A criminalidade cresce, argumenta Candice, porque o Estado é inoperante. Noutro post, dessa vez em seu blog no portal Cada Minuto (ver post aqui), Candice Almeida mostra a escalada da violência em Alagoas. Nos primeiros anos do novo século, a violência vem aumentando consistentemente. Abordando um aspecto mais urbanístico, digamos assim, Sérgio Coutinho lembra que o local do cometimento do crime deveria ser usado como um verdadeiro espaço comunitário, em que apresentações culturais e a presença diária da comunidade dariam vida ao ambiente (ver o texto aqui). Uma ocupação adequada do espaço público seria uma arma no combate à criminalidade, como bem lembrado por Sérgio.

Os posts de Candice Almeida e de Sérgio Coutinho ilustram uma falência não somente de políticas de segurança, mas de políticas culturais e urbanísticas. Todos esses problemas seriam motivos mais do que suficientes para que a classe média protestasse. Os protestos, no entanto, são muitos reduzidos, embora motivos não faltem.

É de se perguntar: por que a classe média não protesta mais? Por que a sociedade como um todo não protesta mais?

E é aqui que retomo um dos pontos referidos por Adrualdo Catão: a classe média tem todo o direito de protestar, mas esse protesto, como ele mesmo coloca, somente ocorreu quando as pessoas se sentiram diretamente atacadas pelo episódio de violência. A empatia somente despertou quando se viu o vizinho ser atingido.

Lembro-me de uma colocação do ex-Governador Ronaldo Lessa, em que ele dizia que as balas, em Alagoas, tinham endereço certo, não eram perdidas. Essa afirmação referia-se a um aspecto lamentável da criminalidade em Alagoas: os homicídios eram crimes de mando, com forte conotação política.

Sendo crimes de mando, apenas aqueles que se indispusessem com os caciques locais poderiam ser alvo de violência. Não era algo que nos atingia. Se não se procurar encrenca, viver-se-á em paz.

Com o tempo, as manchetes dos jornais passaram a dar destaque a outro tipo de crime: o tráfico de drogas estaria vitimando dezenas de pessoas na periferia de Maceió. O tráfico teria tomado conta das grotas de Maceió. E aqui é inevitável que se faça uma constatação: Maceió afunda-se na criminalidade, literalmente falando.

Ora, se os crimes da periferia ocorrem por conta do tráfico, o mesmo raciocínio aplicado aos crimes de mando também é aqui aplicável: aqueles que não consomem drogas, ou não se envolvem com sua comercialização, também não serão atingidos pela criminalidade.

E a reação da classe média era uma só: ir vivendo e ignorando a violência que espreitava a sociedade.

Até que chegou o momento em que um motivo banal, por um criminoso possivelmente relacionado com o tráfico de drogas, vitimou um médico conhecido, respeitado, querido, que simplesmente passeava com sua bicicleta na orla de Maceió.

E os protestos finalmente vieram. A classe média finalmente percebeu que estava sendo atingida. Os mais próximos, os vizinhos e os amigos, foram os primeiros a gritar: de dor pela perda. Aos poucos, o círculo expandiu-se: pessoas que nem sequer conheciam a vítima sentiram-se incomodadas, tocadas, estarrecidas.

O que os protestos demonstraram é que os crimes não estão restritos a minorias: usuários de droga, traficantes, pessoas com inimizades políticas. O crime alastrou-se, a ponto de hoje Maceió ser a terceira cidade mais violenta do mundo.

A criminalidade, hoje, é mais um problema a se juntar aos inúmeros que Alagoas tem: sistemas educacionais e de saúde precários, economia pouco diversificada, municípios que vivem de Fundo de Participação, casos de corrupção que corroem os recursos públicos, estrutura demográfica completamente desajustada, em que Maceió é responsável por 40% da população de todo o Estado, IDH baixíssimo.

E a despeito de todos esses problemas, a classe média simplesmente não protestava. Foi preciso ver-se atingida para esboçar uma reação.

Essa ausência de protestos, em Alagoas, como um todo, e em Maceió, em particular, é sinal indicativo da falência em outra área: a esfera pública tem atuação mínima.

Em seu livro A condição humana, a filósofa alemã Hannah Arendt desenvolve o conceito de ação, representativo da atuação humana na esfera política, e o alça a posição de relevo entre as atividades humanas (contrapondo-o ao labor e ao trabalho, isto é, às atividades meramente biológicas e à transformação do espaço mediante a intervenção humana), justamente porque a atuação política seria representativa do viver em sociedade, do conviver. Para Arendt, a pluralidade seria a condição per quam da humanidade. O fato de não estarmos sozinhos neste mundo seria uma condição humana e a atividade política, por ela chamada de ação, seria a atividade na qual essa característica seria manifesta. Lembrando o exemplo grego, do qual ela sempre foi admiradora, essa esfera pública encontraria seu locus (ou topos, para ficarmos na referência grega) na ágora, espaço público no qual os cidadãos inserir-se-iam por palavras e feitos.

Ocorre que a esfera pública, em Alagoas, tem uma movimentação muito restrita. O alheamento da classe média é visível, o que torna o ambiente muito propício à privatização do público por parte de quem detém o poder, aos ataques da corrupção e a uma dificuldade imensa de se tirar o Estado das condições de precariedade em que se encontra. A praça tornou-se jardim; o espaço público foi apropriado, enquanto que os cidadãos colocam-se, eles próprios, numa posição de alienação e de ostracismo.

Essa pouca participação política é, em parte, responsável pelos níveis de criminalidade que presenciamos aqui em Alagoas, e em Maceió em particular. A passividade com que a classe média sempre encarou os problemas de Alagoas pode encontrar paralelo, guardadas as devidas proporções, na passividade com que os alemães viram a emergência da violência contra judeus. Observe-se aqui a similitude: a violência na Alemanha nazista estaria restrita aos judeus, ou a outras minorias. Não era, portanto, um problema que atingisse todos os alemães. Não haveria por que se preocupar. Muito diferente é o caso dinamarquês, em que houve reação por parte da sociedade (ver breve relato aqui).

Essa ausência atinge não apenas a classe média tradicional, como também a chamada nova classe média, a chamada classe C (muito embora o conceito de nova classe média seja bem problemático, pois o que o estudo da FGV faz é adotar um conceito meramente estatístico: aqueles com renda média pertenceriam à classe média, diferentemente da classificação usual, tendo suscitado críticas).

Enquanto a classe média tradicional se omite, não participando ativamente (no sentido arendtiano também) da vida política, a nova classe média sequer tem o costume de realizar os protestos. Como a nova classe C possui renda pequena, a preocupação parece ser primeiro a de garantir os meios de subsistência, ingressar na famosa sociedade de consumo, num movimento semelhante ao visto em outros países emergentes, como China e Índia, por exemplo. Talvez como explicação para esse fenômeno, pode-se mencionar Isaiah Berlin, o qual, em seu famoso ensaio Dois Conceitos de Liberdade, afirma que “o camponês egípcio precisa de roupas e remédios antes da liberdade pessoal e mais das roupas e remédios do que liberdade pessoal, mas a liberdade mínima de que ele necessita hoje, e o maior grau de liberdade de que pode vir a necessitar amanhã, não é uma liberdade que lhe é peculiar, mas é idêntica à de professores, artistas e milionários”. Berlin parece referir-se, aqui, à idéia de liberdade como liberação das necessidades de subsistência, algo bem parecido com o que o psicólogo Abraham Maslow pretende dizer ao mencionar as necessidades fisiológicas como base de sua pirâmide de necessidade.

É possível ainda imaginar que a evolução do direito do voto, no Brasil, também ajude a explicar a pouca participação política da chamada classe C: o voto censitário, calcado na renda, acostumou as classes com menor poder aquisitivo a não votarem. O foco no preenchimento de necessidades básicas, associado à pequena tradição política, são possíveis fatores que ajudam a explicar a ausência de participação da nova classe média, bem como das classes D e E.

E quanto à classe média tradicional (hoje as classes A e B)? O que explica esse alheamento?

Parece mais difícil encontrar resposta para esse questionamento. Suponho que a classe média viva num estado de ensimesmamento. As esquerdas talvez se apressem em culpar o individualismo excessivo e exijam um Estado maior, mais presente. Eu penso que talvez o problema se deva a um hedonismo latente: a preocupação com os prazeres próprios dificulta enxergar os sofrimentos alheios. Se a classe média de Alagoas não enxerga a sociedade como espaço plural e intersubjetivo, tal como concebe Arendt, a esfera pública padecerá.

A classe média precisa protestar mais e tornar-se ativa na esfera pública, como forma de modificar a estrutura política do Estado e retirá-lo da letargia em que se encontra. É preciso ocupar as praças também com manifestações políticas, além daquelas propostas por Sérgio Coutinho.

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O post foi ligeiramente alterado, para incorporar um segundo post de Candice Almeida e para retificar a menção ao post de Sérgio Coutinho, como ele próprio bem coloca em seu comentário logo abaixo. No mais, o texto continua o mesmo.

As duas semanas que passei na Europa fizeram-me refletir um pouco sobre a educação no Brasil e o abismo cultural que ainda nos separa dos países ditos desenvolvidos. Da educação infantil à educação superior, o nosso sistema é ainda muito, mas muito pobre.

A visita a alguns museus, na Europa, ilustra muito bem a sorte dessas crianças européias. Numa visita ao Louvre, na ala reservada à arte e aos artefatos egípcios, era possível ver uma classe de crianças de uns 9 anos de idade recebendo uma palestra sobre o significado de hieróglifos (veja a foto) inseridos numa espécie de pórtico! O instrutor, que eu não sei bem se era algum profissional do próprio museu ou se era o professor das crianças, expunha o significado dos hieróglifos, explicando que um dos símbolos representava a palavra “amado” (aimé, em francês), particípio passado do verbo amar.  As crianças, de posse de folhas de papel reproduzindo o pórtico egípcio, anotavam as informações todas.  Numa mesma lição, aprendiam sobre história e sobre gramática francesa.

Noutra sala, adolescentes aprendiam com sua professora sobre a importância da Venus de Milo para a escultura e para as artes em geral.

Parece ser sempre assim, museus afora. Noutra visita, dessa vez ao Museu de História Natural, em Nova York, no início do ano, o que mais se via eram adolescentes de uns 13, 14 anos, estudando os efeitos do aquecimento global e das mudanças climáticas. Educação científica, tão essencial para as discussões de hoje, em que genética, nanotecnologia e desastres naturais invadem o noticiário.

Estudos recentes avisam que a qualidade do ensino não está necessariamente atrelada à qualidade de recursos (ver matéria aqui). A dedicação de professores, o empenho de pais (muito mais com o exemplo e apreço pela cultura do que propriamente com cobranças), o planejamento de aulas são muito mais decisivos que laboratórios modernos, dezenas de computadores ou um ginásio de esporte completo de equipamentos.

Concordo que não seja essencial. No entanto, como não notar a sorte dessas crianças e adolescentes! A história egípcia é somente ministrada para alunos de 7ª série, o que significa que apenas aos 13 anos os adolescentes são apresentados à história antiga, no Brasil. As crianças, na França, entram em contato com a história egípcia aos 7, 8 anos de idade! Uns 6 anos antes!

Não é apenas o contato com a arte, como se poderia supor a partir da visita à Venus de Milo. É o contato com culturas as mais diversas. O mundo romano e grego representado nas esculturas, os momentos gloriosos da história francesa retratados nas pinturas de David (v. a Coroação, exibido no Louvre), o mundo dos comerciantes holandeses, retratado nas pinturas de Vermeer (cf. o fabuloso Vista de Delft, exibido no Maurithuis, em Haia, na Holanda), os equipamentos científicos antigos, o material dos escribas do Egito antigo. É uma conexão direta com o passado, fazendo compreender o momento presente.

No Brasil, o acesso a essas preciosidades é raro. Muitas dessas coleções foram formadas a partir de origem duvidosa, hoje reprimida.

Antigüidade é velharia. É coisa de museu, diz-se pejorativamente.

Ah, se fosse coisa de museu seria pelo menos digno de se ver. Teria valor histórico, artístico, levaria à reflexão.

E essa diferença cultural explica, em parte, a distância de nosso sistema educacional para aqueles dos países desenvolvidos. Em Nova York, cenas da fauna e da flora do continente norte-americano eram retratadas em detalhes, com muito realismo, no Museu de História Natural.

E no Brasil? Possuímos algum museu de história natural que se preocupe em retratar as riquezas do ecossistema amazônico ou pantaneiro? Possuímos um Museu da Biodiversidade? Vejam que não estou falando de reunir uma coleção de obras de arte como as do Museu do Louvre ou do Metropolitan. Apenas de explorar a riqueza que possuímos aqui.

Infelizmente, prefere-se investir numa televisão pública, projeto de qualidade e oportunidade duvidosas.

E o que acontece com a educação?

Aludir a qualquer tentativa de ampliar horizontes, de expandir o grau cultural, é visto com maus olhos. Estudar francês para ler a Comédia Humana, de Balzac, no original, é prazer escarnecido. E isso em tempos hedonistas

Os brasileiros, quando visitam os museus (nem todos, é claro), visitam-nos entediados. Dá vergonha ver a qualidade dos comentários: piadinhas sexistas ou o olhar ligeiro de quem está diante de um tesouro e pensa nas próximas compras. E isso vindo da suposta elite do país, as classes A e B que têm dinheiro para viajar.

O resultado é uma população que vê a educação como forma de conseguir um emprego ou faz todo o ensino médio pensando que deve estudar matrizes e sistemas lineares porque cai no vestibular (nem sonham com as aplicações na computação, apenas para citar uma delas)!

No Direito, a praga imediatista avança a passos largos.

Não se estuda Direito por amor à ordem (para os positivistas), à liberdade (para os liberais), à democracia (para a política contemporânea), à defesa dos interesses sociais (para comunitaristas). Estuda-se Direito para passar em concurso. Direito Constitucional tem valor não por ser a Constituição o vértice do sistema jurídico, mas sim porque pelo menos 10% das provas de concursos exigem Direito Constitucional.

Filosofia, Sociologia, Psicologia Jurídica são aquelas disciplinas das quais se livra. Xô. Uma visão mecanicista do Direito e até mesmo alienante. Vê-se apenas um palmo adiante do nariz. E como Filosofia, Sociologia, Teoria do Estado são muito teóricas, são desprezadas.

Não há nada de errado em querer ser juiz, promotor ou oficial de justiça. Pelo contrário. Reduzir o mundo aos livros de concurso, no entanto, pode ser perigoso. Corre-se o risco de fossilização, tal como os dinossauros do Museu de História Natural.

Estamos em final de ano, final de semestre letivo. Provas aplicadas, trabalhos para corrigir. É momento de avaliação. Avaliação, inclusive, do modelo de aulas adotado.

Gosto de aplicar provas com consulta. Até permito que a prova seja em dupla. O objetivo é possibilitar a interação entre alunos e a consulta aos textos como material de apoio.

Não vem funcionando, infelizmente.

Tomemos o exemplo da recente prova: em lugar de consultar o livro ou o caderno e, então, produzir o próprio texto, muitos simplesmente não lêem o material com antecedência e simplesmente transcrevem o texto do autor.

Com os trabalhos, então, o problema é mais grave. É gravíssimo.

O trabalho era sobre positivismo jurídico. Positivismo.

Bastava ler o livro do Bobbio e consultar algumas fontes adicionais.

Com algumas exceções, a maioria simplesmente digitou a palavra legalidade, na internet, e vieram as mais variadas respostas. Uns citaram Habermas, outros mencionaram o liberalismo, outros falaram de Hobbes e poucos redigiram o próprio texto. Textos plagiados. Alunos bons, com grande potencial, caindo no mais elementar dos erros: o de enganar a si próprios.

Não estamos mais no ensino médio, em que o professor passava o trabalho e a pesquisa limitava-se a transcrever o texto de outros autores. Aliás, essa prática, ainda no ensino fundamental e médio, era lastimável. No ensino superior, então, é pior ainda.

Façamos aqui uma reflexão: – Qual a razão de ser do trabalho?

O objetivo era fazer com que os alunos entendessem o papel da legalidade para o positivismo jurídico, pesquisassem sobre Kelsen, analisassem como é que os profissionais de Direito interpretam a legislação e qual o método de interpretação típico do positivismo. Entender a relação entre forma e conteúdo, no positivismo, em contraposição à relação entre forma e conteúdo no jusnaturalismo.

Um segundo objetivo, não menos importante, era o de estimular a capacidade de raciocínio crítico e de escrita.

Não se iludam: ao redigir petições, escrever pareceres, sentenças não haverá a possibilidade de transcrever o texto de algum autor famoso, simplesmente.

Tomemos o exemplo de uma petição inicial. Nela, vocês terão de narrar os fatos, o que aconteceu com seus clientes e, a partir daí, apresentar os fundamentos jurídicos do pedido a ser formulado ao juiz.

Por mais que se possa acrescentar uma jurisprudência, citar (indicando a fonte, evidentemente) um autor renomado, será necessário redigir os fatos e indicar os melhores fundamentos juridicos. Por mais que a história possa se repetir para outros casos, essa redação inicial, primeira, será necessária. Alguém tem de escrever o primeiro modelo. Sem falar que os argumentos variam de caso para caso.

Qual, então, o segundo objetivo do trabalho?

Começar a familiarizá-los com o exercício da escrita. Fazê-los desenvolver um estilo de redação, levá-los a apresentar os argumentos de maneira concatenada.

Isso serve para todo o curso de Direito. Serve para a vida.

Já vi profissionais inteligentes perderem oportunidades porque escrevem mal. Escrevem mal e não se importam. O domínio da linguagem é ESSENCIAL para os profissionais de Direito. Essencial.

Ao simplesmente copiar o texto, sem dar o devido crédito aos autores, deixando de produzir o próprio texto, o aluno engana a si mesmo. Até parece que fez o trabalho. Ledo engano: não fez.

Perderam uma chance, uma boa oportunidade de se exercitarem. Perderam uma oportunidade de se superarem. Perderam o prazer de enfrentar um texto difícil e conseguir decifrá-lo. Perderam uma oportunidade de aprender.

Estou lendo um texto de um psicólogo húngaro, radicado nos EUA, chamado Mihaly Csikszentmihalyi. No livro, Csikszentmihalyi fala da chamada experiência ótima, ou fluxo. Para o autor, as experiências mais gratificantes, mais intensas, que conferem maior sentido à vida, são justamente aquelas que apresentam um desafio, que exigem concentração, dedicação. É a sensação de um alpinista ao escalar uma montanha, de uma bailarina ao se apresentar no palco, de um jogador de futebol ao marcar um gol, um aluno ao passar num vestibular difícil.

E pode ser também a sensação de produzir um próprio texto, após ter pesquisado e estudado a matéria. A sensação de que se merece um dez. Infelizmente, alguns alunos parecem treinados para não receberem um dez. Acham que é artigo raro, de luxo, exclusivo de uns poucos CDFs… Bobagem. Foram lamentavelmente treinados para se contentar com a nota menor e acabam por perder o prazer de se saber merecedor da nota máxima. Tal como no caso dos nossos trabalhos e suas versões copiadas e coladas. Perderam uma oportunidade de aprenderem, se superarem e terem uma experiência gratificante, como o psicólogo Csikszentmihalyi bem explicou.

Vou reiterar: o domínio da linguagem e o desenvolvimento da capacidade de raciocínio são habilidades úteis para toda e qualquer profissão. Alguém pode até esquecer quem foi Antígona ou o que pensam os positivistas a respeito da legalidade. No entanto, sendo capazes de raciocinar articuladamente e escrever adequadamente, facilmente enfrentarão esses temas e quaisquer outros.

Tal como no positivismo jurídico, a forma (as habilidades adquiridas e exercitadas) é mais importantes até mesmo que o conteúdo ministrado.

A honestidade pode ser também intelectual e o ganho é não apenas a aprendizagem, mas a satisfação de terem se superado.

Vejam a entrevista com

(com legendas em inglês, porque ainda não há tradução, mas sei que alguns conseguirão entender um pouco).

E as inscrições para a P2Pu encerram-se hoje. Vou checar a quantidade de pessoas que se inscreveram para o curso Neuroethics and International Biolaw e verificar se todos poderão participar do curso. Minha esperança é de haja vaga para todo mundo. De todo modo, o tópico, muito novo, conseguiu atrair a atenção de várias pessoas. Ainda é um grupo pequeno, mas já é um bom começo.

E agora é definitivo: o curso na Peer 2 Peer University está confirmado.

As inscrições já estão abertas e as aulas começam no dia 09 de setembro.

http://www.p2pu.org

O Luar Através dos Altos Ramos

 

O luar através dos altos ramos,
Dizem os poetas todos que ele é mais
Que o luar através dos altos ramos.
Mas para mim, que não sei o que penso,
O que o luar através dos altos ramos
É, além de ser
O luar através dos altos ramos,
É não ser mais
Que o luar através dos altos ramos.

Alberto Caeiro, em “O Guardador de Rebanhos – Poema XXXV”
Heterônimo de Fernando Pessoa

Na próxima semana ocorrerá o lançamento da Peer 2 Peer University, ou simplesmente P2P. A proposta do site é muito boa: oferecer cursos de pequena duração e de nível universitário, formando comunidades de estudantes que queiram saber mais sobre um determinado tema e estejam comprometidos a aprender.

O fenômeno de educação aberta vem crescendo, nos últimos meses. O MIT oferece uma plataforma excelente de cursos completos (alguns, traduzidos para o português, pelo Universia), com notas de aula, material de leitura, planos de aula e ementas de disciplinas, exercícios e, em muitos casos, aulas inteiras filmadas ou com áudio disponível.

A Universidade de Berkeley, na Califórnia, por sua vez, criou a plataforma Webcast Berkeley, também oferecendo cursos de altíssima qualidade. A Universidade Yale lançou o OpenCourse Yale, com as aulas gravadas em vídeo disponíveis gratuitamente na rede. Uma simples passagem pelo iTunes U (de University) permite ver a imensa quantidade de conteúdo gratuito oferecido pelas universidades mundo afora. Em que, então, a P2P University se destaca?

Bem, os cursos oferecidos por essas outras plataformas são gratuitos e podem ser vistos por qualquer pessoa, mas não oferecem créditos, tampouco há um acompanhamento por parte dos professores. Na P2P University, os alunos efetivamente se matriculam nos cursos, precisam cumprir as atividades programadas, interagem por meio de discussões online, blogs, wiki pages e, brevemente, poderão receber créditos pelos estudos feitos. Durante 6 semanas (os cursos são de curta duração), os alunos precisam ler o material designado e participar de todas as atividades, sempre sob acompanhamento do instrutor.

Os temas iniciais da P2P University são tópicos bem específicos, desses que não se encontram facilmente na rede.  Behavioral Economics (Economia Comportamental) e Cyberpunk Literature ( Literatura Cyberpunk) são alguns dos cursos oferecidos.  É uma espécie de boutique cultural: os temas são variados (e a tendência é que a oferta aumente consideravelmente, à medida que novos instrutores desenvolvam seus cursos), porém específicos, propiciando uma formação complementar em temas novos e desafiadores.

Eu estou participando do projeto e é possível que meu curso sobre Neuroética e Biodireito Internacional seja incluído já na turma piloto, que se inicia dia 09 de setembro. Infelizmente para nós, brasileiros, o curso estará em inglês (então é Neuroethics and International Biolaw). Até tentei que o curso fosse ministrado em outro idioma, como o português, por exemplo, mas nessa fase inicial isso não será possível. Nesse curso, a tarefa é conjugar dois temas emergentes: neuroética e biodireito internacional (embora eu prefira o termo em inglês; em português, perde um pouco do charme), demonstrando como a Declaração Universal de Bioética e Direitos Humanos (que é bem recente, não chegando a 3 anos) pode servir como parâmetro para regulação de questões novíssimas colocadas pela pesquisas neurocientíficas.

Eu sou uma entusiasta desses projetos de educação aberta, acessíveis a todo mundo, de maneira gratuita, e espero ter condições de conduzir bem o curso. É uma contribuição ao conhecimento, por amor mesmo ao conhecimento, ou, como já o sabiam os gregos, por filosofia…

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